luiz Antonio Mello

 

Ummagumma

O sujeito decidiu aproveitar a viagem para escrever um diário. Um diário sem parágrafos, provavelmente sem ponto e vírgula, mas, ele pensou, sabe como são as coisas... vou acabar não entendendo o que escrevi depois. Pegou a caneta, um bloco e quando começou a rascunhar as primeiras palavras gelou quando avistou, perto, muito perto, um dos caras mais chatos que conheceu na vida. Como todo chato, sentou-se a seu lado e começou a desfiar assuntos variados, todos de anos e mais anos atrás que o sujeito a princípio tentava se lembrar mas acabou desistindo. Optou pelo sei-hum-hum-ah, tá para não partir para a desfeita. Desfeita necessária, pensou o sujeito, que se sentia no direito de estar à bordo de um coletivo, calado, quieto, tentando escrever um diário. Quando o chato disse “há quanto tempo não nos vemos”, o sujeito educadamente concordou porque, afinal de contas, o outro era chato mas não era bandido, safado, nem mau caráter. A única coisa que estava roubando naquele momento era seu tempo para iniciar o tal diário que, por sinal, foi parar dentro da bolsa. Desistiu. O chato perguntou “já leu este livro?” e mostrou um romance manjado, de umas 500 páginas que, sinceramente, o sujeito não lera por absoluta falta de saco por achar que o texto estava torto, preguiçoso, enchendo lingüiça. Mas, evidentemente, em nome dos bons modos e da civilidade disse que não leu porque ainda não tinha tido tempo de debruçar-se sobre aquela obra. O outro, o chato, lembrou de um fato no colégio e deu uma risada enquanto contava que “você tirou zero em Português porque recusou-se a ler “Ulisses” de James Joyce. O sujeito ia começar a explicar que recusou-se a ler porque não havia entendido as 30 primeiras páginas e ainda acha que Joyce na verdade escrevera algo que o tradutor brasileiro distorceu. Ou, na pior das hipóteses, Joyce teria tido vontade de confundir a humanidade com “Ulisses”, assim como o Pink Floyd misturou a cabeça de milhões de pessoas com seu álbum “Ummagumma” do final dos anos 60. Ora, que absurdo comparar James Joyce a Pink Floyd. Mas o sujeito refletiu melhor e resolveu se anistiar. Tinha o direito de comparar a complexidade de “Ulisses” com “Ummagumma”, e daí? E daí que respondeu ao outro, o chato, que não leu “Ulisses” nos tempos de colégio porque não entendeu nada, mas ficou constrangido de confessar. Além do mais, lembrou ao chato, não era uma prova normal. A professora o colocou sozinho no fundo da sala porque, duas semanas antes, o flagrara brincando de Tarzã na cortina da janela. Ou seja, Joyce foi a punição, a pena, o julgamento final. E o sujeito tirou zero. O chato disse que todo mundo riu da cara do sujeito. O sujeito disse ao chato que ninguém riu coisa nenhuma porque era proibido ser humano naquelas aulas. E rir, chorar, beber, comer, dormir e transar são atitudes naturalmente humanas. O chato concordou que a professora era barra pesada, que implantara um regime de terror dentro de sala, mas por motivos que o sujeito também não lembrava mais ela adorava o chato. E o chato vivia puxando o saco, fazendo média, a ponto de ficar isolado do resto da turma que, como o sujeito, tinha horror/pavor da mestra. “Quando cheguei você estava escrevendo alguma coisa num caderno”, disse o outro, o chato, no que o sujeito concordou. Concordou e explicou que estava pensando em escrever um diário para uso pessoal e intransferível, mas não deu porque, digamos, o ambiente estava muito tumultuado, como em todo transporte coletivo. “Além disso, poderiam roubar a sua caneta que, vi de longe, é uma Parker 51”. Não, meu caro, não é uma Parker 51. É uma falsa Parker 51. Já tive duas autênticas que não tive coragem de usar e ambas acabaram se perdendo em minhas mudanças. “Mudanças de vida”. Não, meu caro, mudanças de endereço. Volta e meia eu ainda me flagro procurando pelo menos uma delas que tem meu nome gravado. O outro, o chato, argumentou que “pensando bem, hoje todo mundo escreve no computador, não há mais necessidade de se ter uma Parker 51...você não acha que perde tempo procurando essa caneta? Ainda mais sendo biólogo”. O sujeito não conseguia esconder o fastio, mas ainda assim não perdera a elegância. “Sim, sou biólogo, trabalho em computadores o dia inteiro, mas gostaria de escrever minhas coisas com uma das Parker 51 que perdi”. O outro, o chato, disse que enriqueceu jogando na bolsa e perguntou ao sujeito se ele lembrava o quanto era bom em matemática. Sem lembrar o sujeito disse “de fato você era craque em álgebra e cálculo integral”. O outro, o chato, disse que durante muitos anos não sabia o que o destino reservava para um homem que era fera em álgebra e cálculo integral, até o dia em que pisou na bolsa de valores pela primeira vez. Apaixonou-se na hora. Viu ali uma trilha, uma aurora boreal, sentiu-se um bambi nos parques de Bariloche e acabou enriquecendo. Mas confessou que “talvez por inveja todo mundo se afastava de mim. Você lembra como eu era evitado no colégio? Hein, lembra?” Lembro. “Pois é, hoje, mais maduro, entendo que não deve ser fácil conviver normalmente com um colega de turma que só tirava 10 em matemática. Lembro que só você, Fulano e Sicrano me davam papo de vez em quando, talvez pela simples razão dos três terem objetivos profissionais distantes da matemática. Você, biólogo, Fulano, escritor e Beltrano, médico. Pode ter sido isso. Você não acha, hein?” Não, não acho. “Como assim?”. O sujeito explicou que o que mais irritava todos os colegas de todas as salas do colégio e da faculdade era a insuportável vaidade do outro, o chato. Além da vaidade, a onipotência. Por ser primeiro aluno em matemática, que de fato era, se sentia o melhor e quem se sente o melhor, e vira queridinho dos professores acaba beijando a boca do poder. O outro, o chato, pôs a mão no queixo e cochichou “mas ninguém sabe o sufoco que passei depois que saí da faculdade. Ninguém sabe”. O sujeito argumentou que nem ele iria saber porque o transporte coletivo já estava chegando ao destino e não haveria tempo para ele contar o tal sufoco. Mas o que o outro, o chato, não sabia é que a cidade toda leu nos jornais especializados que ele havia sido expulso de um doutorado por roubar o teorema inventado por um colega. Insistente, o outro, o chato, dizia “deixa eu contar em resumo o que aconteceu para que não fique essa coisa no ar”. O sujeito perguntou você vai contar a história do teorema roubado? “Pois é, balbuciou o chato...eu havia prometido a mim mesmo, cara a cara no espelho que no final daquele ano iria apresentar um teorema meu, que levaria o meu nome porque queria entrar para a história e ganhar uma medalha, fazer palestras. Mas o teorema não saía...foi quando...bem foi quando eu comprei um teorema de um colega. Eu não roubei. Eu comprei. Mas na hora de apresentar o que vale....sabe como é o que vale é o talento e não o dinheiro. E a banca me liquidou. Que vergonha. Eu, o número um....estou apenas rico”. O sujeito lembrou que o transporte coletivo havia chegado. O outro, o chato, perguntou se o sujeito ficaria chateado se ele lhe desse uma Parker 51 de presente. Por que? “Porque você me ouviu.” Eu já tenho duas Parker 51. “Mas você as perdeu”. Mas elas existem. Pra que mais? “É... pra que mais? Quer uma carona?” Não obrigado. Vou à pé, pensando. “Mas está chovendo”. Vou à pé, pensando. “Você pode pegar uma gripe. Meu motorista está bem em frente a estação me esperando, te levo até em casa”. Vou a pé, pensando. “Pensando em que?”. Que a onipotência não tem cura. Me queira bem. Até.

 

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