- Táxi! Táxi!
- Bom dia.
- Bom dia. Fiquei uns 20 minutos tentando achar um táxi, mas vocês decidiram usar esses vidros escuros...não dá pra ver se está livre ou ocupado. Deviam colocar um aviso.
- Questão de segurança. Hoje em dia não está fácil. O senhor vai para onde?
- Barcas por favor.
- A cidade está mudada, parece o velho Maracanã super-lotado. O senhor disse que ficou 20 minutos para conseguir pegar um táxi. Mais cedo passei meia hora na rua Álvares de Azevedo engarrafado naqueles sinais de maluco.
- É por isso, meu amigo, que estou ficando cada vez mais saudosista. Sou protético. Gostava de fazer meu trabalho quase artesanalmente, mas a correria tecnológica acaba engolindo a gente. Nasci e fui criado em Niterói. Nos anos 70, a Rua Moreira César era cheia de casas, sabiás, tinha o barbeiro da esquina, o guarda noturno, o leite entregue na porta, o homem do açougue com seu carrinho refrigerado.
- Também sou nascido e criado aqui. No Fonseca. Comprei meu primeiro táxi em 1986, ano em que casei. A cidade estava um lixo, mas a partir de 89 começou a dar orgulho.
- Limpinha, toda iluminada, fizeram o MAC, restauraram o Teatro Municipal, acabaram com as inundações...mas hoje parece que estamos andando para trás.
- Cheio de caminhão de obras atrapalhando o trânsito.
- Dá vontade de colocar um gigantesco luminoso na ponte com os dizeres “Niterói lotou, favor escolher outro lugar”.
- O senhor parece meio saudosista.
- A gente só fica saudosista quando o presente está difícil. Como não vivemos o futuro nos resta recordar do passado. Eu sou niteroiense e achei que ia viver eternamente aqui.
- Vai se mudar?
- Estou pensando nisso. Filhos criados, netos, sabe como é. Sou do tempo da Leiteria Brasil, do Cinema Central, da Hidrovita.
- Pois é, a Hidrovita. Que bebida era aquela?
- Eu nunca soube direito a fórmula, mas era uma delícia. Ficava ao lado do Central. Eu tomava um suco de abacate maravilhoso e depois uma Hidrovita. Aí, sem mais nem menos, foi tudo abaixo. A Leiteria Brasil, o Central, a Hidrovita, o Odeon, o Éden, até o Icaraí. Acabou tudo.
- Meus pais dizem que o trânsito de Niterói era um dos mais inteligentes do país. Mas vendo esse mar de carros fica difícil acreditar.
- Meu amigo, você é taxista e deve ouvir muita gente aqui no seu carro. Seus pais tinham razão. Niterói já teve transporte coletivo inteligente. Bondes e ônibus elétricos. Quase não faziam barulho. Também, a cidade era a capital do Estado do Rio. Você via o governador entrar e sair do Palácio do Ingá, hoje museu. Com a fusão do velho Estado do Rio com a extinta Guanabara em 1975, Niterói perdeu muito.
- Pra começar o governador sumiu daqui.
- Sumiram todos os que tomaram posse. Eu não gosto de falar porque ainda tenho uma paixão por minha cidade, mas é fato que a partir de 1975 Niterói virou periferia do Rio.
- Mas como está hoje....nunca vi pior.
- Nem eu. Está a maior lambança. Fui eleitor de Roberto Silveira, grande governador, e depois votei várias vezes no filho dele, o Jorge Roberto que pegou essa cidade no chão e colocou no topo.
- Ele é candidato a prefeito este ano. Vai voltar. Também votei nele porque fez muito pela cidade.
- Nascido e criado aqui. Conhece mais Niterói do que nós dois juntos. Claro que também vou votar nele. Meus netos merecem.
- O senhor desculpe a demora....o trânsito.
- Estou vendo. E ainda querem fazer Niterói de cidade-teste para bicicletas. Só rindo. As motos já andam por cima das calçadas, imagine as bicicletas.
- Meu amigo, o nome disso é bandalha administrativa. A culpa não é de quem faz, mas de quem deixa fazer. Se um dia construírem um edifício em cima da Pedra de Itapuca a culpa é de quem deixou.
- É mesmo...está tudo largado.
- Motorista, por favor me deixa na esquina da Visconde de Rio Branco com rua da Conceição. Quase fui atropelado por uma van que furou o sinal ali ontem.
- Pode deixar. Muitos passageiros pedem a mesma coisa.
- Táxi está caro, né?
- Se eu que sou taxista acho, imagino os passageiros.
- Até logo, fique com Deus.
- O senhor também.