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A RESPOSTA ESTÁ EM DYLAN. A PERGUNTA? EM VOCÊ.
Ame-o ou o odeie. Dylan é assim: sem meios termos, palavras e muito menos atitudes. Passei dias sem folhear nada, de papo para o ar, merecidas férias. Porém, antes de ir de encontro ao sol e ao mar (amigos rejuvenescedores de velha data), ouvi muito Bob Dylan e vi o filme “I am not there” (papel magistral de Cate Blanchet com um roteiro que é como diz um grande amigo meu “um tiro nos cornos” dos mal-resolvidos).
Pois bem, de volta às letrinhas resolvi devorar Dylan. Sim, já comi Caetano, Gil, Chico, mas confesso que a indigestão causada por Bob Dylan é de doer o estômago de qualquer avestruz! O criador do hino hippie “Blowin’ in the wind” se apresentava como uma “pedra rolante” de origem desconhecida, quando era um garoto de classe média da cidade de Duluth, nos confins do obscuro Estado de Minnesota, EUA. Sua autobiografia, “Crônicas – volume 1” é mais do que uma biografia, é um atestado de sanidade e de auto-reinvenção constante da personalidade mais marcante da terra do Tio Sam. Dylan é um camaleão camuflado em si mesmo e um excelente escritor.
Não esperem números, datas ou fofocas na prosa de Dylan. O livro, que já vendeu mais de meio milhão de exemplares desde seu lançamento em outubro do ano passado, é forte candidato à indicação ao prestigiado Prêmio Pulitzer; traz confissões de um artista lúcido e, pode-se dizer, erudito. Logo de saída, o astro esclarece que não chegou em Nova York, que chama de “Gomorra moderna”, romanticamente de carona em algum trem de carga como alardeava. Na verdade, veio guiando um sedã Chevrolet Impala, quatro portas, 1957 direto de Chicago. A cena e os clubes de Greenwich Village, zona boêmia de Manhattan, são minuciosamente descritos. Estão lá o Gasligth, o Café Bizarre, o Folklore Center, o Mills Tavern e o Café Wha!, que, além de música, apresentava shows humorísticos com Richard Pryor, Woody Allen e Lenny Bruce, então anônimos. Segundo Dylan, um dos segredos para se ganhar dinheiro em bares era ter uma garota bonita para passar o chapéu no fim do show.
Robert Allen Zimmerman, seu nome verdadeiro, leu Maquiavel, Dickens, Maupassant e Balzac e poetas como Shelley, Milton e Byron. O deslumbre foi tanto que tomou emprestado o nome do poeta Dylan Thomas e chegou a colocar melodia no poema “Os sinos”, de Poe. Nascia aquele que eu nunca tinha ouvido. O timbre de voz sempre me irritava e talvez, só agora, estivesse preparada para escutar Bob Dylan. E parei para fazê-lo em dias de temperatura máxima. Comi Dylan em exatamente 4 horas de leitura. Depois, muito antiácido e alguns CDs comprados em menos de 1 hora na loja mais próxima aqui de casa.
Martin Scorsese lançou pela PBS, rede pública de televisão americana, “No direction home”, documentário de três horas e meia. Dividido em duas partes, o filme mostra cenas nunca vistas da vida de Dylan entre 1961 e 1966. Vale a pena ver.
... E o vento não levou nada, Miss América! A não ser nós mesmos quando assim permitimos. Coisas que só se aprendem depois de ouvir e ler Bob Dylan.
Coloque à mesa seus bons talhares e alguns teores etílicos.
Bom apetite, lay, Lady, lay e jamais descanse em paz.

Crônicas
volume 1
Autor:
Bob Dylan
Ed. Planeta 328 págs.
Preço sugerido:
R$ 45,00
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